Amizade de Amor ou Ultra - Amizade
Este trabalho analisa a constituição da amizade entre os personagens Riobaldo e Diadorim no romance Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, demonstrando pontos de convergência em relação à concepção de amizade no pensamento do filósofo francês Michel de Montaigne. Verificamos que muito se tem dito e discutido sobre a “paixão” existente entre os personagens Riobaldo e Diadorim, mulher travestida de jagunço. Mas, dada a total impossibilidade de “concretização” de um eros, por que não problematizar a relação de amizade estabelecida? É o que propomos e, para tanto, partimos do seguinte princípio: não obstante o desejo físico em voga, o qual nem o próprio Riobaldo compreendia, o vínculo instaurado entre eles, imersos no regime de jagunços, é um vínculo de amizade. O narrador-protagonista propõe que revisitemos as duas faces de seu amor: mesmo não podendo se entregar efetivamente aos poderes de Eros, ele pôde gozar uma amizade verdadeiramente sem reservas, encantadora e indivisível: “amizade de amor”. Perquirindo as principais contribuições teórico-filosóficas sobre o tema da amizade, percebemos uma estreita correlação entre as propriedades da amizade “riobaldiana” e as da amizade montaigniana, quais sejam: o império da intimidade ou, nas palavras do Montaigne, da “frequentação prolongada”; a preeminência da amizade relativamente aos códigos ético-político-sociais, isto é, a primazia do âmbito particular; uma suplantação da prática da virtude, indo de encontro a muitas concepções clássicas; a questão da inexplicabilidade ou imensurabilidade, no sentido de encantamento; a radicalização da limitação da quantidade de amigos “verdadeiros”, cabendo aos demais compartilhar de amizade outras, “comuns”, ou outras formas de amor.

PALAVRAS-CHAVE: Amizade. Grande sertão: veredas. Riobaldo e Diadorim. Michel de Montaigne.

 

pdfAmizade de Amor ou Ultra-Amizade – Elson Dias De Oliveira