O MAIS ASIÁTICO ENTRE OS MODERNISTAS BRASILEIROS

Hoje, um dicionário é ao mesmo tempo a melhor
antologia lírica. Cada palavra é, segundo sua
essência, um poema. Pense só em sua gênese. No
dia em que completar 100 anos, publicarei um livro,
meu romance mais importante, um dicionário.
Talvez um pouco antes. E este fará parte da minha
autobiografia. (da entrevista com Güinter Lorenz)

Profundamente atento às ideias de seu tempo, ao pensamento quântico – probabilidade e simultaneidade –, Guimarães Rosa quis que sua obra fosse, como forma e conteúdo, representação desse novo paradigma advindo da física do século XX, ainda vigente. Ao seu amigo e tradutor, Edoardo Bizzarri, o escritor mineiro dizia que gostava de viver no infinito onde está a solidão e a Alegria.

Para se alcançar esse infinito pela via literária é preciso ser como o Eros mitológico e ter mil e uma faces, ou ser uma das mil e uma noites das estórias de Sherazade. À essa miríade de formas que abrem portas e janelas para a experiência do infinito, o pensamento crítico-filosófico do século XX chamou de enciclopedismo; Umberto Eco definiu como Obra Aberta e Guimarães Rosa nomeou como multiplicidade, sintetizada em sua Álgebra Mágica quando defendia o primado da indeterminação sobre a univocidade dos pontos de vista.

No prefácio da edição brasileira de Obra Aberta publicada em 1976, Umberto Eco reconhece a anterioridade da experiência literária do Brasil naquilo que se tornou tendência mundial. Talvez tenha sido a primeira vez na história que algo nascido em solo brasileiro preparou o ambiente cultural mundial, em face da cultura industrial e mercantil – na esteira de Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, João Cabral e Haroldo de Campos – ao surgimento de novas tendências literárias e estéticas.

Assim, o mais asiático entre os modernistas brasileiros fez de sua obra uma abertura, sobretudo ao mundo situado no avesso do tapete europeu: às tradições afro-brasileiras e africanas e indo-orientais, “onde se cortam os fios e dão-se os nós”, como sugeriu o pernambucano Osman Lins.

Nos sessenta anos de Grande Sertão : Veredas e de Corpo de Baile, o Grupo de Pesquisa Nonada teve a ambição de recompor essa miríades de formas, abertas ao infinito, orquestradas por um certo João, sertão.

Ave, Palavra!